sexta-feira, 27 de agosto de 2021

MINHA IDENTIDADE

 Autoria: (Lene Valente, 2013)


Sou cabocla ribeirinha
Venho das brenhas da mata
muitos dizem
Que sou estranha e chata
Mas eu sou
Uma pessoa sensata.


Nasci na beira do rio
Meu teto era de palha
Madeira e açaizeiro
Do meu chão foi assolho
A agricultura e a pesca
Sempre foi nossa trabalho


Venho das margens
Das águas barrentas
De rios e igarapés
Onde há fontes barulhentas
Das águas lançantes
Das correntezas mormurentas


Sou das entranhas da Amazônia
Adaptada a esta realidade
Com a natureza tenho
Uma relação de cumplicidade
Por isso sou defensora
Da sua diversidade


Sou ribeirinha Tocantina
E destas águas sempre me saciei
Dos frutos desta terra
Tambem sempre me alimentei
E nestes rios e Igarapés
Muitas vezes me banhei.


Nos rebojos e remansos
Destes rios naveguei
Na contra maré e contra vento
Tantas vezes remei
Insistir e resistir as maresias
Mas aqui cheguei.


Foi no brilho desta paisagem
Que eu cresci
Sobre meus traços e imagem
Amei tudo isso aqui
E hoje sou grata a Deus
Por tudo que aqui vivi e aprendi.
              (FIM)

LENDAS DO MEU LUGAR

 Autoria: (Lene Valente, 2014) 


É com grande satisfação
Que aqui vou relatar
Um pouco das histórias
Lendárias do meu lugar
Que por muito tempo mexeu
Com o imaginário popular


Hoje muitas coisas
Os homens modificaram
E essas bonitas histórias
Pra contar ficaram
Gravadas na memória
Daqueles que apreciaram.


Deste lugar eu tenho
Muito o que falar
Foram tantas as histórias
Que eu ouvia contar
E muitas delas
Eu me atrevo a relatar.


Rio Maiauatá
É de quem estou falando
É na cultura lendária de lá
Que já vou mergulhando
E no imaginário Amazônico
Rapidamente vou viajando


Vou começar pela lenda
Da cobra encantada
Que muitas noites foi
Por minha avó contada
E que eu ouvia
E ficava admirada.


A cobra já estava grande
E precisava desencantar
Mas era preciso ter coragem
Para os desafios encarar
Porque se tudo desse errado
Seu encanto ia redobrar


Mas tinha tambem a lenda
Da matinta pereira
Que por lá passava
Toda sexta feira
Com o seu forte assovio
Deixando aquela zuadeira.


E para descobrir a pessoa
Que a matinta vinha ser
Uma cachimbada de tabaco
Era só oferecer
Que no dia seguinte
A revelação vinha acontecer


Muito se falava
Da lenda do lobisomem
Que quando vinha
Sempre estava com fome
A noite era bicho
E de dia voltava a ser homem


Do boto namorador
Eu ouvi muita gente falar
Que a sua preferencia era
As mulheres do lar
Ele deixava o marido sair
E subia pra namorar,


A iara tambem era
Uma moça encantadora
Que seduzia os rapazes
De uma forma dominadora
E muito se comentava
Sobre sua beleza sedutora.


Isto é um pouco
Das lendas do meu lugar
Que por muito tempo fez parte
Da crença popular
E que aos pouco foi se perdendo
E deixada pra lá


Os nossos avós
Até tentaram preservar
Essa cultura lendária
Que hoje não se vê falar
Pois a tecnologia chegou
E roubou o seu lugar
         FIM

O LUGAR ONDE VIVO

 Autoria: Lene Valente (2012)


O lugar onde vivo a presença
Da natureza é constante
É patrimônio construído por Deus
Com uma beleza exuberante
É rico em fauna e flora
É tudo muito deslumbrante


É a mais bela paisagem que
Temos como herança
Para mim não existe outra
Com a mesma semelhança
É um tesouro que levo comigo
Bem guardado na lembrança


É um lugar
De muita riqueza natural
Tem água em abundância
Esse fato é real
Que para cada um de nós
Tem uma importância especial


Fauna e flora têm várias
Espécie existente
E por isso sempre lutemos
Para preservar este ambiente
Que para o nosso sustento
Cada dia produz o suficiente


Mas há também uma relação desonesta
Entre o homem e a natureza
O homem colhe, desmata
E de plantar não tem a gentileza
Esse gesto pode comprometer
No futuro a sua Beleza


A natureza produz
O alimento para o homem
Mas se só tirar e não repor
Com o tempo os recursos somem
E isso prejudicará
A todos que dela consomem


A poluição nos últimos tempos
Muito tem prejudicado
Embarcações que trafegam pelo rio
Poluir já estão acostumados
Jogam lixos e combustíveis nas águas
E acham que devemos ficar calados

  
O ambiente onde vivo
Precisa ser preservado
Principalmente os rios, de onde
Água para o consumo é retirado
Vamos juntos lutar para que
Nosso território seja respeitado


Precisamos despertar
A nossa atenção
Buscar a cada dia
Mais orientação
Para agirmos contra
Estes gestos de degradação


Muitas pessoas já lutam
Para este lugar preservar
Temos a missão de ajudar
A todos se conscientizar
Assim contribuiremos
Para o planeta melhorar


Os lixos e combustível lançados
Nos rios podemos evitar
As queimas e derrubas
Vamos deixar de praticar
Assim podemos evitar prejuízos
Para este nosso amado lugar


É um compromisso nosso
A preservação ambiental
E manter o tal compromisso
É uma responsabilidade social
Que deve ser repassada
Para todos: isso é crucial


Já falei da tua beleza
Meu amado lugar
Agora chegou a hora
De te apresentar
E tenho muito prazer
De teu nome revelar


Estou falando de um rio
Que Maiauatá é chamado
No coração da Amazônia
Encontra-se localizado 
E tem um potencial enorme
Para ser contemplado 
      (FIM)

TOMAR AÇAÍ NÃO É DESELEGANTE

Autoria: Lene Valente, 2018

Sou de Igarapé-Miri
Sou da terra do açaí
Palmeira nativa daqui


O açaí é o alimento
Que em todo momento
Contribuiu com meu sustento


Nessa fruta sou viciada
Se em minha dieta não for associada
Minha fome não será saciada


Seja em casa ou no restaurante
Desse fruto sou amante
De preferencia sem adoçante


Me olhas com preconceito?
Aceita, é o meu jeito
E quero respeito


Eu não abro mão
Deste delicioso pirão
Na minha alimentação


E se queres saber?
Não me envergonha dizer
Que a semente gosto de roer


Misturada com farinha
Na tigela ou na cuinha
Estilo farofinha


Achas que é loucura?
Deixa de frescura
Faz parte da minha cultura


Faz parte da economia
E me dar a alegria
De me alimentar com soberania


O açaí é minha paixão
E com a comida da região
É a melhor opção


Se com peixe é gostoso
Com camarão é delicioso
E com tudo é muito saboroso


Esse é um costume
Que o caboclo daqui assume
E não adianta queixume


Faz parte da nossa vivencia
De histórias e resistência
De muitos anos de experiência


E mesmo que algum arrogante
Demostre em seu semblante
Que tomar açaí é deselegante


Eu digo com exuberância
Fica com tua ignorância
E eu com toda elegância


Bebendo açaí toda radiante
Porque minha consciência garante
Que tomar açaí não é deselegante
                (FIM)

CLAMOR PELA AMAZÔNIA

 Autoria: (Lene Valente, 02/01/2020)


Desta nossa floresta
Que a nós sempre foi honesta
O que nos resta?


Um solo degradado
Por erosão afetado
E um povo conectado

Uma fauna em aflição
Espécies em extinção
Por pura ambição

As árvores na mata
O homem desmata
Explora e devasta

A dor da queimada
O golpe da derrubada
Ninguém faz nada

Rios poluídos
Leitos agredidos
Por projetos desmedidos

Pessoas adoecendo
Animais morrendo
E o globo aquecendo

Ôh! Amazônia querida
Patrimônio da nossa vida
Como estás tão sofrida!

Vítima e algoz
De uma crueldade feroz
Calando tua voz

Lideranças executadas
Brutalmente assassinadas
E terras legalmente griladas

Meu clamor é por justiça
Por esta terra Mestiça
Onde há tanta cobiça

E no momento presente
Clamo a nossa gente
A fazer uma corrente

Unidos ao grito da terra
Desta floresta que berra
Agredida pela motosserra

Vamos salvar, nossa Amazônia querida
Das práticas errôneas, que destroem a vida
E dos falsos projetos, de causa fingida 

              (FIM)

MODO DE VIDA RIBEIRINHA

(Autoria: Lene Valente, 2020)



É nas margens destes rios
Que vivo a peregrinar
Nas idas e vindas
Ponho-me a observar
Tantas riquezas naturais
Deste nosso lugar


Apesar de que já houve
Muitas modificações
Das ações do homem
E de suas intervenções
Mas mesmo assim
Somos os anfitriões


Em biodiversidade
E em riqueza natural
De água doce temos
Uma quantidade sem igual
Somos Amazônia
A maior floresta mundial


Pelos Rios e igarapés
É que somos destacados
Pelo modo de vida ribeirinha
Somos caracterizados
Povos das águas e das florestas
Assim somos identificados


O regime das águas
Norteia a vida na região
Enchentes e vazantes ditam
O rítimo de vida da população
Que mora nas suas margens
E tece uma bela relação


Rios e igarapés são fontes
De alimentos e subsistência
Por onde traçamos caminhos
De lutas e resistência
Mergulhados nos saberes
Da nossa experiência


Nas travessias da realidade
Sobre as águas transitamos
Na intimidade com a natureza
Sobre os desafios mergulhamos
E sobre as dificuldades da vida
A nossa luta reforçamos


São os rios que nos levam
Ao encontro com os saberes
Interligados com as águas
Materializamos nossos afazeres
E na natureza identificamo-enos
Enquanto seus seres


A água está totalmente ligada
A sobrevivência local
Através da concreta relação
Com a atividade laboral
Retratando aspéctos econômicos
Históricos e sociocultural


Assim fica evidente que os rios
São territórios por nós habitados
E em constantes movimentos
Por nós são demarcados
Com carinho, muito afeto
E cheios de significados


É nos cursos das águas
A que a nossa rotina se alinha
E pelas margens dos rios
O nosso povo todo dia caminha
E assim se dá o modo de vida
Da população ribeirinha

            FIM